Como vem a Tuiuti? Personalidades negras contemporâneas vão contar a história de resistência dos ancestrais africanos

O ano de 2022 não está sendo fácil para nenhuma escola de samba. Muito menos para o carnavalesco Paulo Barros, que teve de buscar uma solução para aliar seu estilo mais contemporâneo e tecnológico a um pedido da comunidade do Paraíso do Tuiuti: um enredo com temática afro.

Deu trabalho, mas Barros desenvolveu “Ka Ríba Tí Ye: que nossos caminhos se abram. O Tuiuti canta histórias de luta, sabedoria e resistência negra”, que fala da ancestralidade africana que abriu os caminhos para a humanidade, através de uma associação com personalidades negras da nossa história recente.

Resumo
Desfila a que horas? Sábado (23), às 22h
Vai falar sobre o quê? A negritude e seus ícones
Qual o título do enredo? Ka Ríba Tí Ye

Como vem?

Paulo Barros admite que “foi um desafio”. “Não tinha como encarar um enredo com orixás e divindades, que não podem ter elementos ou roupas diferentes, porque isso fere o conceito da religião. Gosto de fazer enredos de fácil entendimento, que o público olha e entende o que está vendo. Também não queria falar de sofrimento, mágoa, protesto. Queria um enredo para cima, de valorização dessa resistência negra”, disse Barros.

Foi então que, para fugir de um enredo engessado pelas tradições, o carnavalesco foi atrás de 20 personalidades negras contemporâneas, que marcaram seu lugar na história e que trazem características de 20 divindades africanas. Ou seja, cada ala da Tuiuiti vai homenagear um personagem pioneiro nas conquistas do povo negro e reverenciar uma divindade.

“Fiz uma associação entre as características dos orixás e dessas personalidade. Por exemplo, na minha concepção o líder sul-africano Nelson Mandela tem características de Oxalá”, revelou Paulo Barros.

O enredo da Tuiuti começa com a criação do mundo ordenada pelo deus supremo Olodumaré (ou Olorum). E lá estarão representados os orixás Oxalá, Nanã, Exu e Orunmilá, abrindo os caminhos e dando sabedoria aos homens.

Mas também surgirão os líderes negros da resistência, como os ex-escravos Dandara e Zumbi. E mais recentemente, Mandela, o ex-presidente americano Barack Obama e a filósofa e ativista americana Angela Davis.

Depois que os caminhos são abertos pelos líderes de povos e nações, será a vez de os artistas seguirem nesse movimento através da beleza das artes. E aí, o estilo contemporâneo — com muitas referências da cultura de pop — Paulo Barros se faz presente nas figuras de Ru Paul Charles, Beyoncé, Benjamim de Oliveira, Maria Lata D’Água, Mercedes Batista, Serginho do Pandeiro, a escritora Mãe Stella e ator Chadwick Boseman, que interpretou o Pantera Negra, no cinema.

“Boseman foi um dos mais aclamados atores negros recentemente do cinema. Mercedes Batista foi a primeira bailarina negra, Benjamim de Oliveira foi um artista múltiplo. Todos, nessa ou em outras gerações foram pioneiros, abriram os caminhos para a arte do povo preto. Eles trazem a luta e as conquistas da ancestralidade”, disse o carnavalesco.

À luz da ciência e sob a proteção dos orixás, os caminhos serão abertos pela primeira engenheira negra da Nasa, Mary Winston Jackson, a bióloga africana Wangari Maathai, a cientista Jaqueline Goes de Jesus, que descobriu o genoma da Covid, a enxadrista Phiona Mutesi e muitos outros.

Quando a fé surge como movimento de resistência negra, o carnavalesco leva para a Sapucaí o movimento rastafári, o movimento gospel, a congada, o candomblé e a umbanda e o sincretismo religioso, que associou os orixás aos santos católicos.

“O final, sob a coroa da Tuiuti, será celebrado um ritual de iaô (filho de santo), que é o início de um novo ciclo de vida. É o nascimento para a vida espiritual e garante a formação, a preservação e a transmissão dos valores culturais. Uma saudação da Tuiuti de respeito às nossas origens e o desejo de que o passado ilumine o futuro e abra os nossos caminhos”, disse Paulo Barros.

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